O POETA e sua primeira aventura na vigila no Bixigão

À Morta

TE-Ato lírico em três quadros



Roda. Os novos. A nova ação. O barco na primeira parada, São Paulo.

As primeiras notas.

Descoberta do bastão. Bastão jogo roda nas mãos de todos. É jogo, alguém vai ter que começar.

Algo vai ter que acontecer. (B.-QUEREM MUDAR O MUNDO!)

Roupas dos personagens dramáticos da peça estão expostas.

Quem vai começar o jogo? Quem vai ser o primeiro a falar? Quem de fora vai entrar? Qual o jogo do personagem pra baixar? Onde vai ser?

O Bastão é o Hierofante, o iniciador, o rito inicial do teatro. O ator Hierofante ganha o bastão e a coragem da abertura, a música é cantada com o jogo e equalizada com o sentimento.

O ator veste o Hierofante Vivaldi Leite Ribeiro, a construção do prédio Regina. O boneco ainda não tem cara. É Regina... toda mulher.

Compromisso do Cavalo do Hierofante dos Atores da Geração

O Cavalo Ator Hierofante- (Rodando a Roda viva vai até o púlpito mais alto, de um microfone fala de lá de cima.) Senhoras, senhores, meu cavalo!... Cavalos, devoramos a cultura que nos foi dada... Antropofagia, Tropicalismo, Modernismo, Manguebitismo... Tudo para exprimir nossos valores culturais. Hoje, dia ______ esse bastão faz ritual de atualização, de purificação, midificação, modificação... é missa, carnaval, dramalhão, cervejinha, vinho, candomblé, teatro, cinema, música, sessão espírita, poesia popular, inauguração, reforma, discurso, demagogia, transplante,sacis, política, reunião, manifestação, ação, sonho... construção e destruição da própria alma desvairada, tipo Judas em sábado de Aleluia! Aceito em panos e dança um pedaço de personagem; Sou, perdido no teatro. De frente pra trás pra frente 2008 –1996 – 1968 – 45 – 35 – 8 ; Brasil, cidades, mares, povo, comédia, teatrão, se re- inicia o teatro mambembe, agora móvel em mim, e de Hierofante vou até o fim. “Quem não venera os seus mortos / Não merece um mísero pedaço de pão.” Serei a moral. Amoral. Antigamente a moralidade aparecia no fim das fábulas. Hoje ela precisa se destacar no princípio, afim de que a polícia garanta o espetáculo. E se estiole o ríctus interminável das galerias. Em personagem permanecerei fiel aos meus propósitos até o fim da peça, super objetivo, a construção do corpo teatro móvel. E solidário com a vossa compreensão ou incompreensão de classe. Coisas importantes nesta farsátira ficam a cargo do cenário de que fazeis parte.

As luzes e a projeção passeiam junto com os olhos luzes projetores dos atores corifeados pelo Hierofante as Ruas.

O Cavalo Ator Hierofante – América Latina. Centros. Casa nenhuma. Berço re-berço da nossa nova boemía. Orgiástica Dulcina-Regina comida pelos sacis-guerrilheiros-do-amor, lançados a fora, pela santa no país. O futuro da Ágora pelos santos invocados e o real sonâmbulo: Estamos nas ruínas misturadas de um mundo. Os personagens não são unidos quando isolados. (Luz nas roupas personagens.) Em ação são coletivos. Como nos terremotos de vosso próprio domicílio ou em mais vastas penitenciárias, assistireis o indivíduo em fatias e vê-lo-eis social ou telúrico. Vossa imaginação terá de quebrar tumultos para satisfazer as exigências da bilheteria. Nosso bando precatório é esfomeado e humano como uma trupe de Shakespeare. Precisa de vossa corte! Não vos retireis horrorizados com a vossa própria autópsia. Consolai-vos em ter dentro de vós um pequeno poeta e uma grande alma! Sede alinhados e cínicos quando atingirdes o fim de vosso próprio banquete desagradável. Como os loucos, nos comoveremos por vossas controvérsias. Vamos, começai!

Coro – Se o amor é cego / O negócio é apaupar / Pra ver / Com coração

Todos – MERDA! Ação!

Pulso sempre. De coração, de samba, de tambor.

O Hierofante – Respeitável público AS PERSONAGENS DRAMÁTICAS do


1°QUADRO

O país do indivíduo

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Beatriz – Dulcina Cacilda Maria Bonita Deolinda Sylvia Conchita Carmem Janis Eduléia Ofélia Bárbara Iracema de Alencar D. Ismênia Nara Leão Beatriz Azevedo Isaura Garcia Clarice Lispector

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Beatriz-Dulcina – É uma história terrível. Nós perdemos tudo. Jogaram fora. Não acredito! E os álbuns de recortes... Foram desaparecendo. Estavam na secretaria da Fundação. As pessoas passavam, folheavam, levavam. Não era por mal! Era por carinho! Mas nunca devolviam!... Meu corpo de musa até o fim, corpo em resistência.

A Outra de Beatriz – Fúrias enclausuradas de BURCA – coro do vir-a-ser – As Estrelas que não se vê- Sacralama Caetano

A Outra-Sacralama Caetano – Vamos regredir no tempo em busca de sua pedra fundamental. Daqueles que o construíram e se deram em risos quando ele balançava.

O CAVALO Poetator Oswald Vinícius Mario Caio Maiakovski Zé Chico
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O Poetator – Queridos senhores! Remendai minha ALMA para que o vazio não possa escapar.(todos cospem nele) Eu não sei se cuspir é uma ofensa. Estou seco como uma mulher de pedra, de mármore. Caros Senhores! Querem que diante de vocês, agora, dance um poeta notável?

O CAVALO Hierofante Bastão

O Hierofante – Hierofante bastão que une / concentração de perfume.

O vídeo-porta – bonecos – estudo vivo

Coro – Eletricidade Cinema de coragem / Fantasia realidade personagem.

A Enfermeira Sonâmbula Cantora do Pau-de-jegue

TAMBORES DA NOITE

Apresentação da Ágora. Início de música de carnaval. O Hierofante vai jogando bananas, iniciando o ritmo da música de abertura de circo.

O Hierofante – Este é o meu corpo: Tomai e comei!

Todos Dulcina – Ah! A vida / A busca / A emoção das descobertas! / Isso / é que é / importante / Foi / e continua sendo / sempre / no coração do mar / qual é o país em que nós vamos penetrar? / é terra que ninguém conhece / permanece ao largo / é um largo sorriso / e contém o mundo / é o país do teatro em que nós vamos penetrar fundo / Ensina / comédia do coração quente / tem por nome Dulcina / seu eu tivesse um amor! / tem por nome / Dulcina / tem por bandeira / um pedaço de sangue / onde flui a correnteza / do canal do mangue / sentinelas /sacis / estrelas bandidas / madrugadas chupando saudade / (e) scola rosa / pra nossa multiversidade / é o navio humano / quente negreiro / do mangue

O Hierofante – Coração aberto para o Panorama de análise!


Terremoto. Fogo. Fogo digital. 68. Telão na porta. Cai São Oswald na Alcindo Guanabara atravessando os tempos, cai de pára-quedas, vem como mensageiro-carteiro. Enquanto ele visiona, os personagens vão sendo vestidos pelos atores. E serão apresentados pelo Hierofante.

(primeira abertura, sem musica)
abertura SÃO OSWALDO - À MORTA from Fredy S.O. on Vimeo.

(nova abertura, com música)


São Oswaldo – Alo alo...! Caindo de pára-quedas vindo do País da Caatinga, mensagem! A morta foi escrita em São Paulo, em 1937, e revivida pra essa musa morta Dulcina Tropicália Te-atal Bossa Nova Nossa... TELEFONEMAS, alguém ligou!! Quem foi eleito, Obama? Sérgio Mamberti!? Carta-Bomba-Prefácio-Fim (!), do autor do amor do ator do diretor do nadador!... Julieta, Bárbara, Regina, Dulcina, Beatriz, Kamiá, Conchita, Pagú, Cacilda, Maria Bonita, Sylvia, Mãe, dou a maior importância à Morta em meio da minha obra literária...

Coro – São Oswaldo mostra a banana do caralho!

São Oswaldo Maiakovski – É o Drama do Poeta, o coordenador de toda ação humana, a quem a hostilidade de um século reacionário afastou pouca a pouco da linguagem útil e corrente, do popular, da coragem para madrugadas coletivas... A justificativa da poesia perdeu-se em sons e protestos ininteligíveis e parou no balbuciamento e na telepatia. Bem longe dos chamados populares. Agora, os soterrados, os Trofônios, remolinos-Zeus, através da análise, voltam à luz, e através da ação, chegam às barricadas: o CHUTE, o Tombamento, O nascimento do Te-Ato aqui, As PORTAs, O acordo verdadeiro, a primeira viagem! São os que têm a coragem incendiária de destruir a própria alma desvairada, que neles nasceu dos céus subterrâneos a que se acoitaram. As obras primas não são obras primas. São armas da nossa luta. E devemos sempre afiá-las e limpá-las. As catacumbas líricas ou se esgotam ou desembocam nas catacumbas políticas. A você, que é minha companheira nessa difícil aterrissagem, dedico A MORTA.

A cena é um Panorama de Análise.

A porta está sendo projetada e projetando imagens do centenário de Dulcina. E todas as comemorações dentro do centenáRIO. Tropicália, Bossa Nova, Oficina, Silvio Santos, Machado de Assis... Os atores estão de frente para a porta. Estão vestidos de personagens, mas agem coletivamente como coro. O coro de A Outra-Burca-Do-Vir-A-Ser, O Poeta, O Hierofante. A Beatriz é um boneco e imagens e sons digitais. Todos falam com o público. O único vivo em cena é A Enfermeira Sonâmbula Cantora do Pau-de-Jegue.

VÍDEO COLAR TRUNCADO.


COLAR TRUNCADO memória1 md from Fredy S.O. on Vimeo.

O vídeo- é projeção sem som do centenáRIO de Dulcina. O mundo. Os acontecimentos. O movimento dulcynelandia... O Teatro. Influencias, filmes. Imagens. O país. Brasília. Épocas de Oswald. Dulcina. 68. E hoje. Tudo. Um vídeo de contribuição milionáRIA de todos os erros. Sem preconceito, sem conceito. Amontoado de imagens.



A Outra – Somos um colar truncado.

O Poeta- Quatro Lirismos...

Beatriz – E um só lírio doente...

O Poeta – No país dissociado...

A Outra – Da existência estanque...

Beatriz – Não te assustes, Outra!

A Outra – Sou a imagem impassível onde ondulam tuas cargas...


Beatriz – Minha imagem frustrada.

A Outra – O silêncio é necessário à nossa amizade.

O Poeta – Toda mudez termina no útero de amanhã.

A Outra – Estão batendo.

O Poeta – Aqui não há PORTAS.

COLAR TRUNCADO memória2 md from Fredy S.O. on Vimeo.

Beatriz – Abre aquela PORTA.

O Poeta – No meio da mágica.

Beatriz – Nunca se sabe quem é que está batendo.

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A Outra – É perigoso abrir toda porta.

O Poeta – A porta dá sempre na jaula.

Beatriz – Só o papa pode abrir.

O Poeta – O que haverá atrás da PORTA?

A Outra – IÁaaaaaa! Abre a porta! Chi Lo Sá-ciiiiiiiiiiiiiiaaaaaaa!

O Poeta – Pode ser a girafa, o coração, o oficial de justiça, o segurança terceirizado, a ASSERTE, a metralhadora, a ditadura, a amargura, a demoradacracia, o Gil, o racha, a poesia!

Beatriz – Nunca abrem?!

A Outra – Eu me jogo seminua da minha posição social abaixo.

COLAR TRUNCADO memória3 md from Fredy S.O. on Vimeo

O Poeta-Homem Manco-vski -... Eu voava como voa um insulto. Cada perna corria até arrastar sua companheira pela rua vizinha. Que fazer se vocês gritaram que eu sou um paralítico? Velhos e inimigos gordurentos, hoje, no mundo inteiro, não encontrão um único homem que tenha duas pernas iguais.

Beatriz – Entras pela janela equívoca de meu ser, poeta!

O Poeta – És o belo horrível!

A Outra – Praticamente este edifício só tem forros fechados. Habitamos uma cidade sem luz direta – o teat(r)o.

Os Bichos do Teatro – O TEATRO!


O Poeta – Se te atirasses do primeiro impulso não morrerias inteira.

Beatriz – Permaneceria aleijada e bela diante de ti vendendo pedaços de meu espetáculo.

A Outra – Ganharíamos dinheiro.

Beatriz – Me arrastarias torta e bela pelas ruas como a tua musa quebrada!

COLAR TRUNCADO memória4 md from Fredy S.O. on Vimeo.

A Outra – Seria a irradiação do meu clima!

O Poeta – Qual dos crimes?

Beatriz – Fui violada como uma virgem!

A Outra – Estão batendo outra vez, escutem...

Todo mundo no mundo – Abre a porta!

O Poeta – Vou abrir. Não vou.

Beatriz – Tens medo de que seja um personagem novo!

O Poeta – Ou de cair num país de fauna mirrada...

O Hierofante (Jogando bananas.)- Não é preciso abrir, eu já estava aqui. É banana, não é caqui!

Beatriz – É o meu professor de jiu-jítsu.

A Outra – Deite-se porque sua camisola é de vidro.

Beatriz – Me ame! Por favor!

O Hierofante – Faze-te gostar por um velho com dinheiro...

O Poeta – Este teatro fechado rua quarto / de febres está incrustado.

Beatriz – Eu sou uma grande flor / no leito de um açude. AMOR...

O Hierofante – Bon giorno!

Beatriz – Me ame por caridade!

O Hierofante – Onde estamos, em que capítulo, que cidade?

O Poeta – Hospital? Óvulo? Incubadeira?! Teia de aranha?!

Beatriz – Navegamos num RIO preso!


COLAR TRUNCADO memória5 md from Fredy S.O. on Vimeo.

A Outra – Tenho medo de ser um cadáver em vez de dois seres vivos!

O Hierofante – Forneço a consciência dos incuráveis.

O Poeta – A volta ao trauma...

A Enfermeira Sonâmbula (Levanta-se e canta. Ela vai acariciando o seu pau-de-jegue como num sonho) – Madre, na calada de uma noite de enfermagem, esgano a doente que me confiaste. (senta-se)

Beatriz (soluçando) – Ai! Concede-me o último beijo! Ai! Não quero morrer sem o último beijo!

A Outra – Dramalhão! Não admito que faça isso de barulho! Morra como Napoleão.

Beatriz-Regina – Querem transformar o mundo!... O teatro!...

Bichos do Teatro – O Teatro!

A Outra – Através de absurdas serpentinas catástrofes...

O Poeta – As classes possuidoras expulsaram-me da ação. Minha subversão habitou as Torres de Marfim que se transformaram em antenas...

O Hierofante – É a reclassificação...

Beatriz-Sonho – Já sei... Já sei... Compreendo... Quem ama não tem vergonha. No último beijo direi que preciso de ti.

O Poeta – O meu ânimo se torna o ânimo de um condenado à morte... A febre cai com a primeira meia tinta fria da noite. Dou por encerrada a nossa vida amarga e tumultuária. Mas sinto as reações térmicas da insônia. O delírio de novo crepita em meus membros nervosos!

A Outra – Onde não há plano, não há sanção.

O Poeta – Há sempre dois planos e um espetáculo.

Beatriz – Sinto a voragem... Voragem que vai esfriando agente antes de cair.

O Poeta – Oh! Inflexível? Oh! Obsluta! Desmoronas na ação!

A Outra – Iáááá! Que vês, poeta?

O Poeta – Há uma fresta na tua imagem. Uma fresta. Está aberta a porta do teu teatro-quarto tenebroso! Mas não há ninguém dentro dele.

O Hierofante-Razão – Fiquei sabendo que entre o teatro-quarto da Paixão e o do Ódio existe uma porta falsa.

Beatriz – Há o outro homem, o processo, os órgãos públicos e orgânicos, o ciúme de artistas... O CIÚMES (!) a ameaça permanente da vida...

O Poeta-Ciúme – É herança de minha mãe: Inveja.

A Outra – Há, um grande sádico, um sacerdote do circo... No plenário do circo... Quero denunciar! Quero! Que sexualidade crescente! Aquele aparelho um prolongamento do corpo dele. A sua cara de orgasmo! Fundemos um tribunal.

Beatriz – Foi na sala cirúrgica. A pureza me envolvia como algodão. E o pai da minha primeira experiência tropical-digital!

O Hierofante-Satã-Razão-Gil – Ganhei a parada! O tropicalismo está quase morto. Perto das seduções da moda / dos artifícios do tempo / da veleidade de ser o que não somos / Ele morre / de tesão?!

O Poeta-Jesus das Comidas – Vou fazer um michê com ela... Raios. Sinto um suspiro imenso pelo teu corpo em posição...

O Hierofante – Ginecológica... A fantasia é sempre um pára-quedas.

O Poeta – Arte é outra realidade...

Beatriz-Dulcina – Mas eu serei um cadáver rebelde. Racha de movimento! Não me deixo enterrar! Abram esse teatro! Meu oxigênio, preciso respirar!

A Outra – Vives enterrada em ti diante do espelho!


COLAR TRUNCADO memória6 md from Fredy S.O. on Vimeo.

O Poeta – És sempre uma Vitória de Samotrácia, com os olhos e os cabelos presos a um horizonte sem fundo.

A Outra – Eu sou a perspectiva.

Beatriz – Não ouço nada... senão os meus gritos, um atropelo e o silêncio...

O Poeta – Paz a teu corpo!

A Enfermeira – Quem a tratará?

Dulcina Regina.

O Hierofante – Quando a morte resvala por nós, a vida torna-se grandiosa.

A Outra – O autor quebrou a casca; o autor quebrou a norma. / Audácia? Pode ser. Verdade é que é preciso. / Despertar-se por outros modos o sorriso. / Já que tudo em teatro é convenção somente / E o real se consegue artificiosamente, / que se atinja a impressão da vida e seus aspectos, / não pela cópia, mas por meios indiretos, / nunca fotografando em suas cores puras, / porém, estilizando os fatos e as figuras.

Beatriz-Dulcina – As mulheres não querem almas? Somos almas!

O Poeta – Ninguém como eu tem a compreensão absoluta da destruição. Cansada e vigilante ela espreita o homem fora de ação.

Beatriz-Dulcina – Existo para além do bem e para além do mal.

O Poeta – Respiraste o cheiro perigoso da liberdade.

Beatriz – Venho de terras simples. Essa é a verdade.

A Outra – Essa incapacidade de se mortificar... Completamente rainha do coração ufanista / e de todos os corações do Brazil Tropicalista / Quem é? / Quem será? / Por quem batem, na porta assim tão forte / os pobres, tristes / felizes corações amantes do nosso Brasil? / É Dulcina-Eduléia...

Beatriz – Porque “naisci”? Me digam? Me expliquem? Não queria “naiscer”. Sou um pobre sexo amputado do seu tronco econômico... (Chora) Nunca pensei que a vida fosse resistência. Ou me mato ou me isolo na parede de um bordel, uma alma d’os condenados...!

O Hierofante – As conjurações. As óperas. As hipnoses. O Teatrão.

A Outra – Amaldiçoada natureza!

Beatriz – Amaldiçoada hora que me criou! Tu, poeta, não passas de um ser vivo. Devíamos ter juntos uma bela coragem.

O Hierofante – Qual?

Beatriz – Nos amarmos num necrotério lavado... / Deixar o teatro fechado...

O Poeta – Meu coração não sente ainda a força atrativa da morte...

A Outra – Foste tu poeta que preparaste para Beatriz os caminhos evasivos da liberdade.

Beatriz – Eu queria saber se era para outro humano a Inspiração...

O Poeta – Desmanchaste meu sonho infantil. Naquela canção...

Beatriz – Atiro-me em flexa maravilhosa para ti...

O Poeta – És maternal! Que madrugada de amor vamos ter, andorinha brasília! Surgiu minha cotovia!

O Hierofante – A última noite é sem dia seguinte...

A Outra – A mulher não é somente um frasco físico.

O Hierofante – O sexual é a raiz da vida. Aí tropeçam um no outro o mundo velho e o novo.

Beatriz – Quero e não quero.

A Outra – Hesito.

Beatriz – Tenho fome.

A Outra – Ela quer ganhar o pão leviano!

Beatriz-Dulcina-Electra – Meu pai!

CAVALO. Aparece Átila em máscara de carnaval, fantasiado de Agamenon. Cavalos. Dulcina aparece e encontra-se com o pai jovem, seu amante.

Dulcina – Papai... Vem! Vem de TIPOS DA ATUALIDADE. Meu amante pai, jovem, 23 anos...

Coro – Átila Galaor de Moraes! Morto amante palhaço vivo!

Dulcina – Meu pai filho de pais pobres pais e simples pais... Se formou professor. Era bedel, e ensinava em um colégio em São Cristóvão. Mas sei papai, que esse amor pelo teatro que nasce em mim, por esse bando, é o que você mais queria. Me ter. Ter o teatro. E nas matadas de aula e fugas nas férias, você é acolhido ao útero e pega aquele micróbio...

O Coro – Do Teatro!

Dulcina – E no fator trocapital de amor sexual mamãe você encontra... Voltada de Buenos Aires, daquela vida burguesa, mansão e horários rígidos... Estava adaptada a Minas, Gerais... Ah! Os Gerais. Acho que mamãe se adaptou mais por amor ao papai. O meu amor. Não sei, mas talvez ele não gostasse tanto de trabalhar no palco. Talvez ele gostasse mais de teatro do que ela. É muito difícil saber. Saltimbancos, amantes. Sua peça, naqueles interiores mineiros, que não havia tempo de espera, pois nos dois jovens havia amor de mais, queimando mais que as luzes da ribalta, pulsando muito mais que os dramalhões que representavam; abriram o primeiro ato com o quadro da peça no casamento DORES DE GUAXUPÉ, estreiado em 3 de março de 1907.

Conchita aparece como uma guerrilheira de Havana. Casamento dos dois. EVOÉS! MERDA! Saltimbancos. Arroz e ribaltas.

O Hierofante-Abelardo I – Foi o sexual que inventou o jazigo de família e a casa...

Beatriz-Dulcina – Quero ser um espetáculo para mim mesma!

A Outra – És uma flor irascível.

O Hierofante – Só é possível um acordo no sexual.

O Poeta – A poesia é desacordo entre conceitos.

Beatriz – Um terreno fofo, Poeta!

O Poeta – Perco-me no paul do movimento.

O Hierofante – O poeta mergulha na percepção...

O Poeta – Só a cicuta de Sócrates salvará o mundo.

O Hierofante – A data mais importante da história é a que pôs o homem entre a ação e Deus!

O Poeta – Entre o seu ser animal e o seu ser social.

A Outra – Eu sou o Alter ego.

O Poeta – Eu, o oposto de Beatriz... a raiz dialética do seu ser.

Beatriz – Progrido para a morte nos teus braços. E te encontro no seio tumultuoso da natureza. Sou um elemento dela como a lua num ramo de árvore.

O Hierofante – O homem compreendeu a responsabilidade econômica de matar.

O Poeta – O sonho fê-lo acordado criar a primeira jaula.

O Hierofante – A primeira ética.

A Outra – A jaula de si mesmo...

O Hierofante – Os vegetarianos querem retroceder na primitiva direção. Comer da árvore da vida, em pratos industriais.

Beatriz – Em jaulas...

O Poeta – Porque insistes?

Beatriz – Não há argumento que demova o AMOR...

A Outra – No amor só existe o que há de pior no homem.

O Poeta – É a volta do troglodita – violenta e periódica.

O Hierofante – Para garantir a espécie enjaulada. O sexual é a raiz da vida. Sua essência é a brutalidade. O amor é a quebra de toda ética, de toda evolução...

A Outra – É a pessoa distinta que escuta atrás da porta, viola correspondências, manda cartas anônimas e mata nos jornais... Eu nunca fiz isso...

Beatriz – O amor é o quero-porque-quero...

A Outra - Quem gritou?

Beatriz – Não foi aqui.

O Poeta – Tua madrugada será assim.

A Outra – És o presságio, poeta!

O Poeta – Sou a classe média. Entre a bigorna de ouro e o martelo, fiquei o som!

O Hierofante – Alma que esguicha enclausurada.

Beatriz – Sem mim morrerias calado.

O Poeta – Viverei na Ágora. Viverei no social. Libertado!

Beatriz – Sou a raiz da vida, onde toda revolução desemboca, se espraia e pára.

O Poeta – Um dia se abrirá em praça pública o meu abscesso fechado! Exporme-ei perante as largas massas...

A Outra – E o sexo? O inimigo interior?

O Poeta – Deixarei os pequenos protestos – o chapéu grande, a cabeleira faustosa: falarei a linguagem compreensível da metralha.

Beatriz – Existe uma frente única...

O Hierofante – O país oficial de Freud...

O Poeta – Não haverá progresso humano enquanto houver a frente única sexual.

Beatriz – Nunca a tua febre amorosa deixou o meu corpo, Poeta!

O Poeta – Porque me retempero no teu útero materno.

Beatriz – Tenho medo.

O Poeta – No mundo sem classes o animal humano progredirá sem medo.

A Enfermeira – Sabes o que é o medo?

O Hierofante-Abelardo I-Medo – Duas velas. Em qualquer parte do mundo, toda gente sabe que o medo é sempre cortesã... Medo, sentimento inaugural.

O Poeta – É o sentimento de insegurança do feto na vida aquosa da geração.

A Outra – Cinema! Vi uma luz.

O Poeta – É a lua sobre o mar inexistente que nos rodeia.

Beatriz – Estou obscura como uma idéia religiosa.

O Poeta – És a noite. Carrego nos meus ombros o teu desequilíbrio glandular.

A Outra – Alguém gritou? Censurarei quem for...

O Hierofante – Pela porta que não existe.

A Enfermeira Sonâmbula (Levantando-se) – É a hora métrica.

Coro da Hora Métrica- Dorme, Paixão, que a Alegria / Vela teu sono noite e dia. / Não pode haver juventude, / que, com o teu beijo e o meu riso, / não se embriague e transmude, / transmude num paraíso. / Dorme, Paixão, que a Alegria / vela teu sono noite e dia.

Beatriz – Mereço todas as coisas lindas da vida... As coisas lindas da morte.

O Hierofante – No plano da sociedade esquizofrênica.

O Poeta – Toda minha produção há de ser protesto e embelezamento enquanto não puder despejar sobre as brutalidades coletivas a potência dos meus sonhos!

A Outra – Emparedado! Emparedado! Criaste uma grande doença!

Morte da Outra. Cai todo o coro da Burca.

Coro Emparedado – Aceitamos a nossa limitação. Estamos no paredão, mesmo. Nós não construímos os Teatros assim. Pelo nosso embalo os Teatros seriam diferentes. Não temos o poder sobre eles. Nem sobre as ruas. Aceitamos, mas não representar. Nós, estamos aqui para dar nosso corpo, nossa massa cefálica. Tudo. Principalmente o que está guardado entre nós. A nossa Outra. O que não vai se dizer. Principalmente o que não vai se dizer. É lá onde se encontra a força, o rio clandestino. A Amazônia clandestina que cada um de nós nesse momento agora traz no Teatro desse bando. Nós queremos de vocês o mesmo. O que não vai se dizer está presente. O que não se diz. A partir da morte dessa personagem coro A Outra de burca. E não se diz?

Palavras do Poeta da Beira do Mangue da América Luz das trevas, futuro pra quem fica junto.

Poeta – Gozai! Um corpo foi roto / E jogado em pedaços / Ao canal das Hetaíras / Plec! Plec! Plec! / Era o cadáver / Movimento estagnado / É o racha / Eu o pressenti / Pelas negras águas fechadas / De soutien e calça? / Uma boca matutina? / A CHUVA desfolhada? / O arfar das esferas e das estrelas que não se vê no céu do agora.

Beatriz – Meu rapin!

O Poeta – A construção do romantismo habita esta rua-quarto-teatro... A PORTA!

Beatriz – Que sou eu?

O Poeta – A psique irreconhecível...

O Hierofante – O nascimento da Alma estrela de Absinto.

O Poeta – O subterrâneo que a sociedade ordena. Um dia serei reconduzido à atmosfera...

Beatriz – Estamos fora do social!

O Poeta – A polícia só me permite esbravejar no teu dramático interior.

O Hierofante – Poeta!

O Poeta – Eles tomaram o Estado, eu fiquei com a mulher. Criei uma alma de cova. Por isso busco o drama e busco o teu cheiro.

Beatriz – Cantas a tua MISSA de corpo presente!

O Poeta – Minha vida reduzida, prisioneira, entumulada.

Beatriz – Sou a mulher de mármore dos cemitérios, das televisões, das mitificações, dos puteiros sociais...

O Hierofante – Pise baixo... devagar.

A Enfermeira – Um golpe de jiu-jítsu, pronto.

O Poeta (num grito longo) – Tu me mastigas noite tenebrosa!

Cai o corpo de boneco da Beatriz-Dulcina. Cai morto o primeiro movimento.

(Ator - O que vai ser? Quem tem coragem de continuar? Quem teve a coragem de realmente começar?)

O Hierofante – Consumatum!

O Poeta – Guerra à sua alma.

A Enfermeira – É preciso desfazer todo o sinal de drama...

O corpo cultural que o tropicalismo destruiu - e se tornou - vai ser transmitido ao vivo pelo apresentador iniciador Hierofante. Vai surgir o CORAÇÃO verdadeiro da comédia. Transplante.

O Hierofante – Não há perigo. Recomponhamos o cadáver. É um piedoso dever. Juntemos nossos membros esparsos, os cabelos, os dentes. O coração. Vamos assistir neste momento / Ao transplante do coração do monumento Tropicália-Musa / Que vai falecer / O momento é de enorme tensão coletiva / A tropicália-musa é o doador / até o presente momento / não podemos informar quem será o receptor do Coração-Tropicalista-Musa / Há notícias de que será o PODER JOVEM. (Ironia “que poder jovem?”) / Mas por enquanto / O Coração restará entregue a si mesmo / Conservado numa solução de sangue / Suor / E lágrimas!

Ela retorna.

Beatriz – Meu amor.

O Poeta – Não é possível mais...

Beatriz – Por quê?

O Poeta – O professor te dissociou. Fujamos. Não há crime ainda visível.

A Enfermeira – Na aurora virão buscar os restos do chá da meia-noite.

Tema de Caronte.

Beatriz – O amor é o quero-poque-quero da vida.

O Hierofante – O criador do irremediável.

O Poeta – Que diz agora o nosso coração vivo? Para justificar-mo-nos!

CENÁRIO: Corações. Grutas.

PERSONAGENS: O Ódio. O Ciúme. A Paixão. O Sonho. A Razão. O Medo. A Alegria.

SUPER OBJETIVO: Concentração de perfumes.

Beatriz – Vive do medo de ter te perdido!

Canhão. Terremoto.

O Poeta – Quebraste o elo.

Beatriz – Não poderei fazer nada sem ti, sem teu calor, a tua adoração.

O Poeta – Quebraste a porta fechada...

O Hierofante – Complexo de que faço a máscara.

O Poeta – E eu a ruptura...

O Hierofante – Darei sempre a visão oficial.

O Poeta – Enquanto eu bradar o canto noturno do emparedado. Um canto desconexo. Interior como o sangue. As comunicações cortadas com a vida!

Beatriz (chorando) – Desfiguraste-me sob as tintas efusivas do amor. Eu amo você poeta. Mas vamos para algum grupo já formado....

O Poeta – Fizeram-me abandonar a Ágora para viver sobre mim mesmo de mil recursos improdutivos. Eu quero voltar à Ágora.

O Hierofante – A realidade molesta os humanos.

O Poeta – Eu sou um valor sem mercados. Criaram o sentimento e o tornaram um valor excluído da troca.

Beatriz – És o augúrio, poeta!

O Poeta – Encontrarão aqui a tua imagem silenciosa. Dulcina.

Dulcina.

Beatriz – Eu sou a lealdade sem sentido!

O Poeta – No bem como no mal.

Beatriz – Não te deixo...

O Poeta – Melancolia! Feita de luar e de onda noturna! Quem te definirá?

O Hierofante – No país do Ego...

Beatriz – Porque acreditas em mim?

O Hierofante – És insolúvel sem a censura.

AI-5. Sangue. Hoje. Sangue.

Beatriz – Tanto algodão e tanto sangue!

O Hierofante –Vou para o país sem dor, o mangue. Longe das conjurações e das óperas!

O Poeta – Ficarás nesse garfo gelado.

Beatriz – Socorro!

O Hierofante-Abelardo I – Ninguém te ouvirá no país do indivíduo!

O Poeta – Quando a morte resvala por nós, a vida torna-se grandiosa.

70.

Abelardo I – Num país Midieval como o nosso, quem se atreve a passar os umbrais da eternidade sem uma vela na mão? Herdo um tostão de cada morto nacional!

Beatriz – Dá-me um epitáfio, poeta!

Tratador de Cavalos- Hierofante – É o cavalo! Está

O Poeta-Oswaldo – Diante do espelho, és sempre a Vitória de Samotrácia, com os olhos e os cabelos presos a um horizonte sem fundo.

Beatriz – Fujamos. Foi a outra que morreu!

O Hierofante – Sopra para sempre o comutador noturno.

O Poeta – Meu álibi! Meu secular álibi!

Toque de virada. Tambores. O coro A Outra renasce de baixo de cada burca. São os cremadores atores. Nasce Beatriz Atriz ganha máscara de Beatriz Dulcina. Cavalo vira Horácio nariz vermelho, interior como o sangue de coração quente, sátiro saci atleta afetivo.

Mortos e vivos. Preparações para o terceiro quadro, Amélia, Senhora Ministra...

Os personagens O Poeta, O Hierofante, a atriz que ganha a máscara de Dulcina e Horácio vão rodando como planetas telúricos. Devirsh. O vídeo toma conta da rua e das paredes dos prédios. Imagens de cidades. Acontecimentos em massa. Cultura e cultura de guerra. Policiais, exércitos, coros. Imagens clichês e históricas. Imagens atuais. Crise Mundial. Obama. Votação. Teatro Dulcina fechado. Imagens de dentro do teatro. Juízes. Tribunais. Musos mortos. No vídeo todos os possíveis musos mortos, artistas, arquitetos, bandidos, guerrilheiros,políticos...

Tela


2° QUADRO

O país da gramática


Personagens dramáticos

O Poeta

Beatriz

Horácio

O Cremador

O Hierofante

O Juiz

Uma roupa de Homem

Grupo de Cremadores

Grupo de Conservadores de Cadáver

Mortos

Vivos

O Turista Precoce

O Polícia Poliglota

Todos os atores juntos, antes de virarem vivos e mortos evocam o espírito da América. Fazer descer a chuva fecundada pelos opostos – negativo x positivo, mortos x vivos. Olhos em todas as nuvens ciganas, em todas cabeças. Em todos apartamentos casa cidade estão aprisionados os espíritos que trazem o vento forte da rebeldia.

ESPÍRITO DA TERRA.

Morrem os Serafins...Serafim. Descoberta dos poetas que o teatro não é literatura. É poesia pura. Instala-se um profundo silêncio. O bastão está perdido e será encontrado posteriormente enterrado na terra.

Os náufragos, sem casa, sacis caminham com as mãos estendidas. Baixam-se e colocam o ouvido junto da terra... Embaixo...Sua respiração...corre um rio.. ouvem o pulsar da terra.

O boneco. Serafim. Ele em pedaços será levado até o público. E ele permanecerá como tal. Os atores gritam RE-SSur-REI-ÇÃO! Ainda como cadáver levam-no para enterrá-lo. Volta-se pra SILÊNCIO. Corrente de cérebros escutando a terra. Os atores batem no chão gritando RE-SSU-REI-ÇÃO num crescendo violento até cavar o chão ver o rio e achar o novo bastão. Abrem um baú cheio de personagens. Vão criando o 2° quadro. Carnaval, aparece o Policial, o Turista, Os cremadores, roupa de Juiz, de guerrilheiro, de Cristo, narizes de palhaço etc.

As imagens projetadas do final do 1° quadro vão virando palavras e números. Nomes dos personagens conforme eles forem entrando, indicando. Tudo do segundo quadro são palavras e imagens fotográficas de mortos musos.

O Hierofante coriféia o grupo de mortos conservadores de cadáveres, com narizes azuis, as interjeições, a cervejinha.

Os vivos cremadores de nariz vermelho, com todo amor, começam seu Te-Ato; vão descobrir a porta e começar a pintá-la, ou colar coisas no teatro. Brindes de vinhos, báquicos sacis.

São dois times, dois coros, dois sons, duas músicas.

O Polícia Poliglota divide a Rua e a calçada colocando uma divisória com cones e fita entre os dois grupos. Pode ser uma rede de vôlei, tênis... Divide entre vivos e mortos a rua. Placas de indicação são postas, escritas: Coro de Conservadores de Cadáver. / Coro de Cremadores de Cadáver. Produção viva de cartazes barbarismos.

E cartazes contra-regrados para os mortos, frases feitas e interjeições. A rua é tomada por indicações, para reconhecer cada lugar que acontece o País da Gramática, indicação das coisas, chão, RUA, CALÇADA etc. Lê-se o Panorama de Análise.

Flash. Fotos digitais, em celulares, máquinas. Lembrança do momento seguinte que passou. Registro. Turistas. Um turista de culturas e movimentos aparece fotografando a Ágora.

Tela-Vídeo Vivo –

Já é frase feita dizer que nossa é poça é terrível. Nela campeiam, sem freio e sem censura, a brutalidade, a ignorância e a mentira. Mundo da usurpação, mundo da mistificação, mundo da sofisticação. As grandes influências do século? Que século? D’Annunzio para o amor. Dumas-pai para a política. Conan Doyle para a moral. Baudelaire para a imagem. Os grandes êxtases: O Gibi e o futebol.

Hitler nunca leu Nietzsche. Leu Os Três Mosqueteiros. E o povo alemão vai atrás d’ Os três Mosqueteiros.

Mas não há nada que se salve no meio disso? Há! Há o mundo novo que penetra pelas frestas abertas da guerra. A fogueira tomou conta dos sete mares, os cinco continentes, do equador e dos pólos. O acelerado é dado tanto pelas metralhadoras da Wehrmacht, como pelas bombardas liberais dos ingleses. Mas quem começou? Quando começou? Por quem começou? Quando começou o pandemônio? Em 1917, com a entrada de Lênin na velha capital dos czares? Em 14, quando um estudante, em Sarajevo, alvejou o herdeiro do império austro-húngaro? Ou, antes, na batalha naval de Suishima? Ou na guerra dos Boers, que foi a primeira nota do século antiimperialista?

É uma cena de circo. São todos palhaços. Quadro de circo e fogos de artifício.

O Turista Precoce – Faz favor. Quem são aqueles?

O Polícia – Um russo, um alemão, um japonês, um italiano, um saci nacional...

O Turista – Que são?

O Polícia – Sacis. Movimento artístico... ensaio aberto...! embrião de universidade. Essas coisas sabe...? Nomes comuns. É a grande reserva humana de onde se tira para a ação o sujeito...

O Turista – São vivos?

O Polícia – Vivos todos.

Brinde e comemoração, barbarismos, serpentinas, beijos, confete, vinho. Música.

O Turista – E aqueles?

O Polícia – São os mortos. Os que só gostam de assistir. Talvez se sentimentalizar. Mas sem se filiar, sem tomar partido. A reflexão, a lógica, o método... A paz. O direito. Nossos musos mortos. A coragem tornada medo. São a paz, serenidade...

O Turista – Vivem juntos? Vivos e mortos?

O Polícia – O mundo é um dicionário. Palavras vivas e vocábulos mortos. Não se atracam porque somo severos vigilantes. Fechamo-los em regras indiscutíveis e fixas. Fazemos mesmo que estes que são a serenidade tomem o lugar daqueles que são a raiva e o fermento. Fundamos para isso as academias... os museus... os códigos... os órgãos... os editais...

O Turista – E os vivos reclamam?

O Polícia – Mais que isso. Querem participar. E se for preciso que os outros desapareçam para sempre. Mas se isso acontecesse não haveria mais os céus da literatura, as águas paradas da poesia, os lagos imóveis do sonho. Tudo que é clássico, isto é, o que se ensina nas classes, nas universidades católicas de arte...

O Turista – Com quem tenho a honra de falar?

O Polícia – Com a polícia-exército-militar-milícia-federal-terceirizado-guarda-costas poliglota.

O Turista – Oh! que prazer! O senhor sou eu mesmo na voz passiva. Na minha qualidade de turista falo sete línguas, nesta idade! E não tenho mais governante!

O Polícia – Também falo sete línguas, todas mortas. A minha função é mesmo essa, matá-las. Todo o meu glossário é de frases feitas...

O Turista – As mesmas que eu emprego. Nós dois, só conseguimos catalogar o mundo, esfriá-lo, pô-lo em vitrine, conversar com minutos contados!(Olha o relógio.) É você.

O Polícia – Somos os guardiões de uma terra sem surpresas.

O Turista – E querem transformá-la! Absurdo! Não é melhor assim? Sabemos onde estão a torre de Pisa, as Pirâmides, o Santo Sepulcro, os Cabarés, O Corcovado, O MASP...

Imagens na porta. Apresentações de slides do turista na frente de lugares turísticos do Mundo, da Cinelândia, do Rio, do Brasil.

O Polícia – Nossa desgraça seria imensa se subvertessem a ordem estabelecida na indústria cultural. Desconheceríamos as pedras novas da vida, os feitos calorosos da rebeldia. Não distinguiríamos mais fronteiras e alfândegas... Perderíamos o pão e a função.

O Turista – E nós, os ricos, os ociosos, onde passear as nossas neurastenias, os nossos reumatismos? Onde? Perderíamos toda a autoridade.

Vozes.

Os Cremadores- Abaixo os mortos! Limpemos a terra! Abaixo!

O Polícia – De um tempo pra cá, não sei porque agravou-se a contenda. Creio que os vivos cresceram, agora querem se emancipar. Abrir essa tal de DULCINA PORTA. Os mortos os agrilhoam à indústria. E eles querem ocupar os centros culturais, os prédios abandonados, fábricas, cidades e o mundo... Ingratos. Não sabem que, sem os mortos, eles não teriam tudo, emprego, salários, assistência...

O Turista – E patrões. Que seria do mundo sem os patrões?

O Polícia – Eles querem queimar todos os cadáveres, os mais respeitáveis, os que fazem a fortuna das empresas funerárias mais dignas, como a imprensa, a política, a TV Globo...

O Turista – Acabam querendo queimar o cadáver da curiosidade, que sou eu!

A voz dos cremadores se tornam grande letras na porta pela projeção.

Vozes ao fundo – Abaixo a autoridade dos ociosos! Abaixo! Queremos o verbo criador da ação...! Abra essa porta! Verbo imperativo Acaba o drama, ela pode ser a Comédia do Coração! E proteger da CHUVA cá embaixo!

O Poeta (Entra conversando com Horácio) – Deixei-a para sempre... Sinto-me atual. Longe da Apassionata, do modernismo, da Tropicália, do Concretismo, do Exibicionismo...

Horácio – Pisas de novo a terra dos que se embuçam nas regras do bom viver...

O Poeta – Telões paredes, projetores, erês, Chico barco o aniversariado Teatro Regina ligado...! Santo Alcindo! Renovo-me na rua.

Horácio – Seu santo Guanabara é um Imortal! A rua é o país da gramática. Nele acharás o teu elemento formal.

O Poeta – Ainda guardo a esperança trágica de vê-la... Viva! Abertas as pernas-portas... Doce de dia pra landia das crianças... Doce de noite pra landia das outras crianças! Seu Rio abençoado cortando embaixo... CORRENTE FIRMA!

Coro – FIRMA!

Horácio – Voltas a essa mulher como um criminoso! CORRENTE FIRMA!

O Poeta – Porque sou o culpado.

Horácio – Deixaste-a?

O Poeta – Estou andando cada vez mais para o lado das estrelas e ela está ficando no meio da música...

Horácio – Estás marcado por ela...

O Poeta – Sinto-a como a culpa, como a esperança... Sem ela a vida é deserta, o mundo é uma trágica planície sem descanso! Ela é a caverna do indivíduo... Onde me acolho sem nada esperar, sem nada desejar...

Horácio – Ela te imobiliza e amortalha.

Tumulto... Um homem gordo levanta uma tabuleta onde se lê “Deus Pátria e Família”. É o Hierofante-Chacrinha. Brinde de cervejinha e música dos mortos.

Horácio – São os morto que manifestam...

O Poeta – Conheço aquele homem da tabuleta.

Horácio – São os conservadores de cadáver...

Tumulto do outro lado da divisão. Um grupo de exaltados, em roupa pobre, protesta. Fazem o CHUTE. Homens e mulheres invadem a cena.

Os Cremadores – Limpemos o mundo ! Abaixo os mortos! Eles comem a comida dos vivos! Abaixo! O órgão vai continuar mal administrado, e nós continuaremos lobotomizados sem a participação do amor!? Quem será o próximo? Abram a porta para a cultura e comunicação, como São Manuel que abriu a da moradia! Hoje é O DIA!

O Hierofante – Materialistas!

O Cremador-Saci – Ao contrário! Somos os cupidos Brasileiros do amor-fogo que atravessa qualquer idade... a constante idealista que faz avançar a humanidade!

Alcindo Guanabara. A rua inteira canta.

O Poeta (Apontando para Beatriz que aparece com passos medidos, estática sob um véu.) – Ei-la! Que gestos solenes! (Ela sobe até um pequeno palanque, como uma estátua de samotrácia. Vem com as asas de anjo queimadas, como se tivesse caído na queda do ícaro) Voltas ao meu caminho?

Beatriz – Eu vi o sol do rio, a correnteza no nosso Te-Ato! Ela passa debaixo de meus pés. É doce e salgada! Uma premonição da vida toda. Da correnteza! FIRMA CORRENTE faz um teatro bem pra frente! Fogo e calor! O Charuto de um suicida! (Vê o poeta.) Meu babe seja mambembe. Todos os esforços me abandonaram! Onde estou?

O Poeta – No país da ordenação...

Beatriz – Os homens abatem as florestas. Expulsam os espíritos da terra! Substituem as árvores pelas armações metálicas. A natureza vencida pela mecânica!?

O Poeta – Desfizeste tua frágil e confusa capa ética. Deixaste a sociedade dos humanos...

Beatriz – Me reconheces?

A atriz vai trocando de máscaras. São atrizes, militantes, mulheres do amor da guerra, de todas as guerras, guerras de paz e de guerras.

O Poeta – Ainda trago no corpo o perfume lascivo de tuas calças!

Beatriz – Sou virgem de novo. Não vês este véu?

O Poeta– É a máscara de um ente que se dispersa! O teu inóspito ser se desagrega! (Retira o véu enorme.)

Beatriz – Ao contrário, encontrei a minha unidade!

Horácio (Chamando-o.) – Deixa-a! Não vês que habitas de novo com ela os subterrâneos da vida interior?

O Poeta – Ela é o meu drama. Meu inferninho! O meu playcenter!

Horácio – O empresário da tua morte. Deixa-a!

O Poeta – Não. Acorda de repente o coração. Corrosivo de todo debate... A consciência torna-se um estado sentimental e a justiça foge do mundo pelo anal... Oh! Drama! Desenvolvimento do próprio ser universal! Eu te busco!

Beatriz – Porque crias em mim pesados encargos assim! E o sentimento de culpa! Desenvolvido na célula de um circo. O sentimento espetacular da culpa! A disciplina das feras, as grandes quedas sem rede, o amor pelo palhaço. (Gullieta Masina A Strada da Vida.)

Horácio – Foge! Não vês uma a uma as ficções da vida interior?

O Poeta – Porque fugir? Para depois me arrastar pelos locais em que a acompanhei? Me acoitar à sombra de seus gestos idos, procurando nos cenários perdidos, encontrados a dois, a sombra de seu ser, a lembrança de sua voz?Ficarei para sempre perdido no mundo terrível da rua...

Novo tumulto.

Os Cremadores – Fora! Fora os exploradores da vida! Os exploradores do teatro! Limparemos o mundo!

Beatriz – Quem são esses desordeiros?

O Poeta – É a vanguarda que luta pela libertação humana. Os parteiros dessa Ágora, com os Santos fazendo no amor da LUA CHEIA LUA DE MEL... Copulando o pau da boemía no cu de cultura e na buceta moradia!

Beatriz-Dulcina (Sufocada.) – Quanta gente! Não posso, não posso me habituar. Esses homens procurando mulheres esperando homens... Mesmo nascida no carnaval, não gosto de multidões. Prefiro o teatro. Cada um no seu lugar. Eu no palco, o público assistindo.

O Poeta – Pareces pertencer a um país assexuado. Que sentes? Tens os olhos longínquos, a boca voluntariosa crispada!

Os cremadores recebem dos mortos mais um morto-muso, ou uma frase feita de 68(ex.).

Os Cremadores – Fogo nesses podres! Abaixo o despotismo dos mortos!

A música toca um tango. O Hierofante procura o Evangelho.

O Hierofante – In illo tempore!

Os Cremadores – Fora! Fora!

O tumulto cresce. Guerra das palavras. Os cremadores galicismos, solecismos, barbarismos. Do lados dos mortos cerram colunas, graves interjeições, adjetivos, lustrosos e senhoriais arcaísmos. Cada um tem a vez de falar, de cantar. São frases movimentos, o vídeo-porta vai ampliando a discussão. Letras formando palavras criando frases.

Coro das Interjeições – Oh! Ah! Ih!

Os Cremadores – Fora a estupidez das interjeições!

O Hierofante – Massa desprezível de pronomes mal colocados!

Voz Master – Imperativos!

O Cremador – Fora! Quinhentistas! Falais uma língua estranha às novas catadupas humanas!

O Hierofante – Somos o vernáculo das caravelas, Capitão...

A Cremadora – No século do genoma, nem mais do avião...!

Os Cremadores – Somos a língua falada pela rádio... Queima essa tabuleta.

Um cremador ultrapassa a cerca. Frases feitas como ofensas. Alarme! Na porta-vídeo as gerações revolucionárias. O cremador toma a tabuleta “Deus, Pátria e Família”, volta para seu lado. Colocam fogo na tabuleta.

Os Conservadores - Babel! Babel!

Os Cremadores – Não! Somos os fundamentos do esperanto, a língua de uma humanidade una!

O Hierofante – Não pode! Não pode! Quem poderá destruir uma frase feita?

Os Cremadores – Fora as frases feitas, as frases ocas! Fora as frases mortas! De quando for; mesmo de 68!

Os Conservadores – Chama o Juiz! Chama o Juiz!

A Multidão – O Juiz!

O tema do Juiz.

Vozes – Aí vem o juiz. Ele julgará!

Os Conservadores – É um grande gramático!

Os Cremadores – É um juiz de classe. Centralizador!

Os Conservadores – Viva o Juiz! Viva o nosso querido Juiz!

O Juiz agradece a manifestação. Formam-se em torno dele semicírculos irados.

O Cremador – Conhecemos o julgamento! É contra nós! Vão nos excluir!

O Juiz – Silêncio! Julgarei segundo os cânones.

Vozes – Os cânones mortos.

O Juiz – Começai a exposição do pleito. Sou todo ouvidos! Que Deus Stanislawski e Jesus Brechristo me inspirem e me garantam o céu da escolha da encenação. Atenção: Quebra a perna!

O Hierofante – Aqui todos vestem o que querem. O importante não é este negócio de roupas. É eliminar as duas classes. Atenção! Acusados! Juízes! Culto aos mortos! Culto aos mortos! Onde já se viu destruir um cadáver! Senhor Juiz. A humanidade levou séculos para construir esta frase: “Deus, Pátria e Família”. Como derrogá-la? Como e porque?

Beatriz – Como fala bem esse velho!

Os Cremadores começam a tocar, show protesto. CHUTE. Todos os cremadores estão fantasiados agora de NUVEM CIGANA. Completamente anos 70. Tropicalistas.

O Cremador – O que nos traz a cena é fome. Mais que qualquer vocação. Muito mais que a vontade de representar. Muito mais que a vontade de cantar. É o problema da comida! É o problema do Regina!

A Cremadora Rebordose - A produção da terra é desviada dos vivos para os mortos. Trabalhamos nós para alimentar cadáveres. Mais eles absorvem a produção, mais aniquilam os vivos. Vai para sua boca insaciada, tudo que produzimos.

Os Cremadores - Eles possuem armas dirigem exércitos iludidos pela ignorância e pela fé religiosa. Rebelemo-nos! Vamos nos mover! Corrente!

Vozes-Digitais-de todo o mundo – Façamos a limpeza do mundo! O teatro precisa ser cuidado! Limpo. Respirar. Sangue circular!

Os Cremadores – Queimemos os cadáveres que infestam a terra!

O Cremador – Queimar! Pra queimar é preciso amar muito. O fogo é o amor, a paixão. O consumo! Ele precisa consumir. Se renovar. O amor “é” filho do tempo. E é preciso ter a coragem incendiária de destruir a própria alma, de sair da incubadeira... largar a bombinha de asma! Sair do útero. O fogo é renovação!

Vozes-Digitais-de todo o mundo – Sim! A Cremação é renovação! A cremação!

Os Cremadores – É preciso destruir os mortos que paralisam a vida!

Os Conservadores – Futuristas!

Vozes-Digitais-de todo o mundo – Vamos queimá-los!

O Juiz – Esperai! Esperai a sentença. Tragam aqui o livro, o método para a construção dos personagens: Bi-blos. Das atuações das decisões de nossas restrições de nossos imortais. Tudo está no livro. (O Hierofante traz o livro com uma grande música e põe diante dele um grande livro aberto. Está escrito na capa A CONSTRUÇÃO DO VERDADEIRO TEATRO. Ele vira as páginas.) Vamos ver. De-vo-ta-mento... Pu-ri-fi-ca-ção! Adiante! Vi-ver para os outros! Não! Está aqui! Achei. (Lê num grande berro.) Os-mor-tos-go-ver-nam os vi-vos! (Aclamações. Protestos.)

O Hierofante – Assim fundamentamos a educação! E não com esse projeto de universidade “livre” mal formatado pra esse grande Teatrão!

Os Conservadores – Muito bem! Muito bem! Bravo!

O Hierofante – Devemos obedecer os nossos maiores. Seguir o que está escrito... O Regina deve ser como cinqüenta anos atrás até o infinito.

Vozes – Julgai! Julgai!

O Juiz – Os mortos governam os vivos. Premissa maior! Premissa menor... os cremadores são excessivamente vivos! Ergo! Ergo! Devem ser... Conclusão! Governados...

Os Conservadores – Governados por nós!

Os Conservadores levantam seus métodos, fotos dos musos mortos, bandeiras, mitos.

Vozes-Digitais-de todo o mundo – Muito bem! Muito bem!

Outras vozes – Fora! Idiota! Vendido! Cadáver!

O Hierofante – Eis um silogismo irrefutável!

Pausa. Ação viva, o teatro pára para reflexão. As guerras passadas serão motivos de guerras futuras?

O Poeta – Essa lógica tem servido de fundamento a todos os crimes históricos. De ontem. De hoje. De sempre?

A ação retoma.

O Hierofante – É extraordinária a perspicácia dos livros!

O Poeta – Fora o velho argô dos filisteus!

O Cremador – Rebelemo-nos no amor. Serpentinas! Um dia sairemos de nossos laboratórios subterrâneos... Para limpar o mundo de toda putrefação, inação! Nossa estrela á a que ainda não se vê. É a que existe.

As Interjeições – Ah! Oh! Ih!

Coro – Vestido de branco / chegou afinal! / Trazendo na cinta / Pistola e punhal! / Pra dar na cabeça / Do pobre e do mau / Gentil Bernadete / Pegando no pau!

O Juiz vai saindo na música. Confete em cima dele, que ganha um abacaxi e uma cervejinha.

A morte do cremador, o nascimento do guerrilheiro deus.

O Hierofante Soldado Vermelho – Abaixo os solecismos! Abaixo os barbarismos! Abaixo!

O Hierofante-Abelardo I tira do bolso o nariz de morto. O Cremador tira o vermelho e troca com o dado pelo Hierofante. Coloca seu armamento nas costas, acende o charuto Cubano. CheGuevara! E sua vela. Imagens do corpo do lutador. Ele sendo comerciado nas lojas e bancas de roupa.Imagem dele dentro do Teatro Regina-Dulcina. Conchita. Havanna.

O Hierofante-Tigre-Abelardo – O senhor é acusado de ser um elemento insuflador em todas as guerras...

Morto Che Manuel Cristo Congo –

Em9

La guerra tambiem nos molestó

Dm9 _____________Em9
Como no? Como no?

Em9/A
Aeroplanos e cânones

_______Am4
destruíram

______________Em9
dos casitas muy bangalós

B7 _______________B7(9b)
Que teníamos! Que teníamos!

______Em7
Para o romper de los hombres

_______Am7
del campo

__Am9
Sus ojos mirados

F#7___________ B7
em las nuvens universidad

Bm7
em las camisetas
mi alma vendida
para phoder dejar
mi mensagem

sin perder la ternura
sin perder la ternura


Coro – Vestido de branco / chegou afinal! / Trazendo na cinta / Pistola e punhal! / Pra dar na cabeça ? Do pobre e do mau / Gentil ChegueiVARA / Pegando no pau!

Saem todos os mortos. Vão para o coro de cervejinha.

Uma Roupa de Homem (Passando. É o boneco de Olinda agora com roupa de homem.) – Boa tarde, linda!

Beatriz – Boa tarde.

O Poeta – Quem é?

Beatriz – Um conhecido. Estive ontem com ele...

O Poeta – Impossível...

Beatriz – Sim. Pediu-me que fosse sua! Falou-me da eternidade. Mas lembrei-me de tuas palavras. Recusei. Ele disse: - Não insisto! Sei que serás minhas!

O Poeta – Mas é um morto, querida!

Beatriz – Morto!?

O Poeta – Sim. Tu não morreste... Não podia ter se encontrando intimamente com ele, que não existe. Por acaso não notou as roupas despegadas do corpo. Não sabes? É um morto.

Beatriz – Aqui na cidade?

O Poeta – Sim meu amor. Os mortos ainda infestam a terra viva. Metade da população desta praça é de gente morta.

Beatriz – Se eu tivesse morrido, serias um necrófilo!

O Poeta – Ter-te-ia abandonado!

Beatriz – Não podes abandonar-me! Nasci da seleção de ti mesmo! (Declamando.) Comecei a palpitar com a tua religião infantil, com a tua cultura adolescente! Fui o cofre heráldico das tuas tradições, a cuna de tua gente!

O Poeta – Como te encontro mudada! Não te recordas senão de evocações e cadeias!

Beatriz – Tu te tornaste puro estímulo mecânico. Não acodes aos chamados de tua alma!

O Poeta – Os acentos de minha dor não te penetram mais. Não quebram a mudez do teu mundo de pedra. Estás perturbada, os olhos longínquos, a boca voluntariosa crispada.

Beatriz (Depois de um silêncio evocativo.) – Pertenço às regiões da amnésia.

O Poeta – No entanto não poderei fazer mais nada sem ti! Sem teu calor e tua adoração.

Beatriz – Amo-te ainda. Vem comigo. Nada pode conter a vida...

O Poeta – A morte... Corpo em resistência.

Beatriz – Nunca a tua febre amorosa deixou meu corpo.

Melodia da Passagem pra um grande enterro. Os mortos vão organizando um bloco de carnaval.

Beatriz – Vamos com eles, Poeta!

O Poeta – Não.

Beatriz – Vamos!

O Poeta – Queres seguir a música da morte?

Beatriz – O Juiz decidiu...

O Poeta – O Juiz é um morto também.

Beatriz – Somos todos mortos!

O Poeta – Vem para o outro lado! Minha ação heróica e prática te salvará.

Horácio – É preciso mudar o mundo, os teatros, os cinemas, os órgãos...!

A Voz do Hierofante – É preciso conservar as instituições!

Horácio – É preciso queimar os cadáveres que infestam a terra. Eles tiram os alimentos dos vivos.

Vozes – Querem mudar a superestrutura.

Uma Voz – O comportamento.

Outra Voz – A reflexiologia.

Beatriz – A raiz de tudo é o sexual. O amor é o quero-porque-quero da vida. Nessa frente única a humanidade hesita... Vem.

O Poeta – Não, o social domina os humanos. Vem conosco. Vem com os liberadores do grande conflito!

Beatriz – Como és cândido. O que os homens querem é isso, só isso! (Coloca as mãos recatadamente sobre o sexo.)

O Poeta – És a morte, o abismo final, o longe da terra.

Beatriz – Sou a imagem do sexual.

O Poeta – Estás deformada, longínqua, inexata... Pareces despegada dos ossos, como aquele que te cumprimentou.

Beatriz – Tenho um encontro marcado com ele.

O Poeta – Impossível. É um morto!

O bloco da morte toma conta da cena lentamente, com a melodia da Passagem pra um Grande Enterro. Beatriz centraliza-o.

Vozes – Culto aos mortos! Culto aos mortos! Passagem para um grande enterro... Vamos comemorar. A morte . A morte. A morta. Um cadáver vai passar... (Abre uma avenida com beatriz no meio como porta estandarte. A atriz coloca a máscara d Dulcina em uma bandeira. Saem levando-a.Sambando.)

O Poeta – Força de resistência ao mundo que começa...

Horácio – Onde vais? Que tens?

O Poeta – Estou como quem perdeu um brinquedo querido... espera...

Horácio – Deixa-a.

O Poeta – Horácio, não escalpeles minha dor! Estou marcado por ela.

Horácio – Onde vais?

O Poeta – Salvá-la!

Horácio – Como?

O Poeta – Pelo primeiro avião... Numa folha morta passarei a garganta cerrada da outra vida. (Sai correndo atrás do cortejo, cuja charanga ainda se ouve.)

Horácio – Insensato! Poeta! Guardar-te-ão para sempre os dentes fechados da morte!

Tela


3° QUADRO

O país da anestesia


Personagens dramáticos

Beatriz Dulcina Cacilda Clarice

O Poeta Cavalo Maiakovski

O Hierofante

A Criança de Esmalte

Seus Pais

O Atleta Completo

O Radiopatrulha , acompanhado de uma motocicleta

A Dama das Camélias

Senhora Ministra

Caronte

O Bode-Urubu de Edgar fã de Edgar Baudelairiano

Música- fala-coro-respiração-presa de entrada no País da Anestesia. Meditação. Os cérebros dos atores são trazidos pelos personagens. Podem ser exatamente como GRACIAS SEÑOR. Cérebros de repolho. São colocados à mostra para o quadro inteiro, e no final serão destruídos. Eles vão entrando no teatro cantando e descobrindo outros cérebros.

Coro de Atores – Eu só tenho meu cérebro. Eu não tenho mais dinheiro. Mais espaço. Casa./ Nem mais o que eu phoderia. Mas o meu cérebro ainda não foi conquistado e eu tenho noção da minha esquizofrenia. / Eu sei que sou esquizofrênico. / E você espectador também sente esse impulso em você, e se não está sentindo é porque você está com medo. Com medo que eu fale o que é o medo. / Está todo contraído você. Está criando uma couraça ainda maior em você. Está sepultando o que você tem de mais forte em você... / Vocês gritam na inação que o teatro está morto. Sim, aceito. Serei esse bode expiatório... Tudo está morto. / Eu estou vivo, e vou me fingir de morto por ironia. Espero que se divirta no carnaval do seu País da Anestesia.

Teatro Morto. De Palco Italiano. A construção do teatro Regina de 50 anos atrás. A cena representa um recinto sobre uma paisagem de alumínio e carvão. Ao centro um jazigo de família televisão. À esquerda a árvore desgalhada da Vida, em forma de cruz, onde arde pregado um facho,e duas cordas de enforcamento, são Didi e Gogo; um jardim de cenouras. O grupo de atores vai ocupando a sala, cantando a música inicial.

Sobem ao palco ficam de frente para o público com os cérebros. O Hierofante toma a frente.

O TEATRO ESTÁ MORTO – Trazer teoricamente o clima de morte para a sala.

O Hierofante – O teatro é o bode. Vocês estão mortos. Se vocês estão presos a essa cadeira, tão presos a essa couraça; Como nós a este palco. A este sonho de um velho do século XIX, deixar o teatro como a cinqüenta anos atrás? Então como poderemos nos comunicar? Talvez essas fileiras sejam fileiras de túmulos. O cinema está morto. A música está morta. Os restaurantes e galerias estão mortos. As assembléias estão mortas. Universidades. Mortas. As Ruas. Mortas. O Tropicalismo está morto. Ninguém mais precisa criar nada, é só obedecer o patrão ausente. O grande espetáculo no ano centenáRIO do silêncio. A MORTE. E a televisão perdida estranha numa paisagem e fósseis e de ficção cientifica irradiando a morte de tudo. A morte pela insensibilidade. Total. E toda a energia que ainda pulsa nesse momento, chegando. Sim porque aqui há energia. Que pulsa é para parar mais. O assassino que você acha que está em você. O louco. O revolucionário. O messiânico. O esclarecedor. Mas ele está te cortando a respiração e se já não está mais é que você já morreu mesmo. A moda, a maxi mídia, seu carro, seu bilhete, seu cartão, o bombom sonho de valsa: Estão mortos! Assim até a chegada do Poeta!

Jogo da Respiração Presa para provocar angústia. Esperando O Poeta-GODOT. (Caronte personagem que carrega um tema, toda vez que é dito seu nome. Ele é a ponte entre os mundos.)

O Radiopatrulha – Ouve-se já o ruído do motor!

A Dama das Camélias – Escutem!

O Atleta Completo – Não é!

A Senhora Ministra – É uma mosca.

O Hierofante – Não.

O Atleta Completo – Agora é!

A Dama das Camélias – Não.

A Senhora Ministra – A mosca.

O Hierofante – O autogiro de Caronte...

A Senhora Ministra – É uma mosca no interior do meu nariz!

O Hierofante – Terá a dialética nasal.

Silêncio. Esperando O Poeta-GODOT.

A Senhora Ministra - Gostaria de conhecer o Poeta...

O Radiopatrulha – Ele vem de autogiro.

O Hierofante – Não. É Caronte que vem de autogiro, trazendo a morta!

A Dama das Camélias – Quem é?

O Hierofante – Beatriz. Dulcina.

A Senhora Ministra – E ele?

O Hierofante – O Poeta vem de planador. Só assim penetrará nestas paragens...

A Senhora Ministra – O motor!

O Hierofante – A mosca. Não enche Sartre!

Telão- Fundação TV Defunto Nirvana. Novela “COICES DE AMOR”.

O Pai (Pondo a cabeça pela ogiva do jazigo.) – Silêncio! Eu habito um lugar silencioso ou não? Eu me matei para ouvir a solidão. Para estar só! Quero ficar a sós com meu personagem. Não viver em sociedade, em comunidade. Em nenhuma sociedade, grupo, ocupação, relação com público. E me encontro assediado de intrigas cumulado de vis preocupações de más interpretações.

O Hierofante – Faço sentir que o ator está num cemitériatro de primeira. Não há melhor.

O Pai – Por isso é que eu não queria embarcar no autogiro.

Silêncio.

O Hierofante – O motor...

A Dama das Camélias – O Poeta...

A Senhora Ministra – A mosca...

Mortos - Que saco, Sartre!

O BODE-Urubu de Edgar atravessa a cena ao fundo. Tensão de teatrão. Caras e olhos arregalados dos mortos.

O Radiopatrulha – Ouço vozes...

A Dama das Camélias – É a mosca azul do sartre...

O Hierofante – É o Bode-Urubu de Edgar-galo.

O Radiopatrulha – Silêncio!

O Hierofante – Fiquemos concentrados como perfumes.

Berreiro no jazigo. Novela “COICES DE AMÔ”.

A criança cheirando esmalte – Ai! Ai! (Espia pela vigia-câmera.)

Os Cadáveres – Que é isso? Que é isso?

O Hierofante – Uma cena de família. Novelão...

A Senhora Ministra – Que pessoal escandaloso!

A Dama das Camélias – Brigam sempre. Nunca pensei que fosse assim no seio da sociedade honrada!

O Hierofante – Gente católica. E extremamente conceituada. O drama que os trouxe para cá teve a mais tétrica repercussão nos meios distintos.

A Senhora Ministra – É Nelson, não? Como foi?

O Hierofante – Gás! Suicídio coletivo.

A Dama das Camélias – E ninguém escapou?

A Criança (Pela vigia-câmera.) – Esse sujeito, além de me ter suicidado, não quer me dar doce!

O Pai – Cala a boca!

A Criança – Depois diz que é pai!

O Pai – O amante da tua mãe te dava doces!

A Criança – É por isso que eu gostava dele...

O Pai – Cínico, bastardo, filho de uma...

Pancadaria, urros, choros. Intervalo da novela “COICES DE AMÔ”. Espera. Pausa.

Estragon-Dama das Camélias – Delicioso lugar. Perspectivas risonhas, de ventos augurais. Vamos embora.

Vladimir-Radiopatrulha – Não podemos.

Estragon-Dama das Camélias – Por quê?

Vladimir-Radiopatrulha – Estamos esperando...

Mortos – Godot? Caronte?

Vladimir-Radiopatrulha – O Poeta.

Estragon-Dama das Camélias – É mesmo. (Pausa.) Tem certeza que é aqui?

Vladimir-Radiopatrulha – O quê?

Estragon-Dama das Camélias – Que era para esperar.

Vladimir-Radiopatrulha – Ele disse perto da árvore. (Olham para a árvore.) Você não vê outras árvores?

Estragon-Dama das Camélias – Que árvore é essa?

Vladimir-Radiopatrulha – Parece um chorão... Mangueira... cesalpina...

Estragon-Dama das Camélias – E as folhas?

Vladimir – Devem estar mortas.

A Dama das Camélias – Esta árvore não tem sombra.

O Radiopatrulha – Gastou o que tinha em setenta séculos!

A Senhora Ministra – Porque a trouxeram para cá?... Cante para nós Hierofante!

Ele se faz de difícil. Os mortos insistem. Ele aceita. Começa uma marchinha clássica, melodia conhecida. No vídeo imagem da historinha que ele canta.

O Hierofante – É uma peça de museu. Como nós.

Caras de museu dos mortos.

O Hierofante – Foi ela que fez a queda do primeiro pai. Monkey daddy como nós.

Mortos – Ai!

O Hierofante – A queda... Quando o troglodita desceu da árvore... caiu. E se tornou Homem...

A Dama das Camélias – É a Árvore da Vida...

O Atleta Completo – Da vida espiritual. A única que me interessa...

A Senhora Ministra – Quem é esse sujeito?

O Radiopatrulha – É um atleta completo.

Coro – Mas não tem frutas essa árvore?

O Hierofante – Tinha uma. Comeram. Foi com seus galhos que se acendeu o primeiro fogo... (Mudança de clima. Tensão de premonição.) E, com ela toda, se fará a última fogueira...

A Senhora Ministra – Então é uma incendiária? (Todos se olham. Volta a marchinha anterior.)

O Hierofante – Nela costumamos festejar o Natal dos falecidos... Que hoje recebe a musa de um vivo!

Mortos – É a nossa árvore incendiária. Festejamos o nosso natal... que hoje recebe a musa de um vivo sem igual!

Novela “COICES DE AMÔ”.

A criança (Pela vigia-câmera.) – Eu quero um brinquedo...

O Pai – Vai pedir ao amante da tua mãe.

A Mãe – Ele nunca me trouxe as doenças que trouxeste para casa.

Eles desligam a novela.

A Dama das Camélias – Continue a história da queda de Adão...

O Hierofante – Levou um tombo... Quando se levantou do solo estava criada a propriedade privada...

A Senhora Ministra – Foi dessa árvore que ele despencou...

O Radiopatrulha – Então que somos?

O Hierofante – O conteúdo das mitologias...

O Atleta Completo – O alimento espiritual dos mortos!

A Senhora Ministra – O sustentáculo das religiões!

O Hierofante – Depois que o ouro nos expulsou da Idade de Ouro... Exploramos a fábula...

O Radiopatrulha – E o trabalho da terra.

A Dama das Camélias – Então foi um choque físico que produziu homem?

O Hierofante – Não. Foi um choque econômico. Caindo da Árvore, ele perdeu os frutos com que se alimentava.

Silêncio. Espera.

A Senhora Ministra – Engate o rádio, Seu Patrulha.

O Radiopatrulha – Não posso. Só tenho na minha motocicleta uma Estação Emissora.

A Senhora Ministra – Que pena! Agente podia até ouvir a terra... Escutar a Giovinezza... Ir às corridas de longe. Ao futebol...

A Dama das Camélias – No meu tempo eu adorava as corridas.

A Senhora Ministra – Oh! As corridas! Longchamps! O Derby de Epsom! Mas o futebol! Eu tinha um coronel que me pagava o táxi o dia inteiro, só para namorar os meus braços nos jogos. Era um homem casado, muito sério!

O Bode-Urubu de Edgar passa ao fundo. Todos fazem a cara de teatrão espanto.

A Dama das Camélias – Quem é esse passarinho?

O Atleta Completo – É o espírito da Árvore.

A Dama das Camélias – Como é que se chama?

O Hierofante – O Bode-Urubu de Edgar.

A Senhora Ministra – Quem é mesmo o dono?

O Hierofante – Um literato, Edgar Poe.

A Dama das Camélias – Para que serve um bicho desses?

O Hierofante – É quem fornece certidões de óbito.

A Dama das Camélias – Onde que ele mora?

O Hierofante – No interior oco da cruz.

Silêncio. Espera.

A Senhora Ministra – Ó vida chata!

O Hierofante – Que vos falta aqui?

A Dama das Camélias – A primavera! Pássaros coloridos! Gritos d’alma! Namorados!

A Senhora Ministra – Vamos inventar um joguinho?

O Hierofante – Jogaremos golfe com as nossas caveiras...

O Atleta Completo – Faltam as esteques.

O Radiopatrulha – Jogaremos com as nossas próprias tíbias.

A Senhora Ministra – Não. Melhor é ler a mão. Um brinquedo da sociedade...

O Atleta Completo – O Hierofante Sabe ler.

Os mortos estendem a mão para o Hierofante num gesto mecânico.

A Senhora Ministra – Disseram uma vez que eu ia morrer aos oitenta anos... Mas blefaram.

O Hierofante – Aqui é impossível ler-se a mão de alguém.

A Dama das Camélias – Por quê?

O Hierofante – Porque não temos mais linhas nas mãos tumefactas... (Todos examinam as próprias mãos. TODOS.) Está tudo esgarçado pela morféia lenta e definitiva da morte. Vivemos na negação.

O Atleta Completo – Na eternidade.

O Hierofante – No além do espaço.

Tempo. Silêncio. Meditação sobre a morte. Espera.

A Senhora Ministra – O poeta não virá até aqui atrás d ‘A MORTA!

A Dama das Camélias - Virá. Eu que fui mulher da vida, sei que ele virá.

A Senhora Ministra – Quem é senhora?

A Dama das Camélias – Não vê? (Mostrando as flores que a envolvem) Sou a Dama das Camélias.

A Senhora Ministra – Pois eu fui a senhora legítima de um ministro da cultura, que amava esporte...

O Atleta Completo – Não adiantou nada. Apodreceu como eu. Eis aqui o que resta de um atleta completo.

Silêncio.

A Senhora Ministra – Ó! Patrulha! Liga o rádio da motocicleta. Fala a Nirvana-Emissora! Vamos desmoralizar toda vida.

O Hierofante – Não!

O Atleta Completo – Por quê?

O Hierofante – Estas coisas mecânicas não condizem ao nosso estado onírico.

A Senhora Ministra – Mas a irradiação nos interessa.

Os Mortos – Isso... a irradiação!

O Atleta Completo – É um desabafo espiritual...

A Senhora Ministra – Um passatempo...

A Dama das Camélias – Trouxemos conosco todos os recalques terrenos.

A Senhora Ministra – Ou não habitamos o país sem censura...

A Dama das Camélias – O autogiro está se aproximando. O poeta virá atrás...

O Hierofante – Agora é.

Barulho de motor seguido do tema de Caronte.

O Radiopatrulha – Viva Caronte!

Os Mortos (Manifestando.) – Viva! Viva o iniciador! Viva!

A Senhor Ministra – Silêncio!

O Hierofante – Que reine entre nós o silêncio que convém aos mortos.

Permanecem todos estáticos como figuras de cera. O Urubu de Edgar se imobiliza junto à árvore esgalhada. Escuta-se o ruído de um motor. Um autogiro desce verticalmente, e dele sai Caronte trazendo nos braços um corpo de mulher amortalhado num grande renard argenté. É a Santa do Terreiro Regina, seu nome é Dulcina a Be-Actriz.

O Hierofante – Está morta?

Caronte – Não insistiu em ficar.

O Hierofante – Os mortos não insistem.

Caronte (Depositando o corpo sobre a mesa de mármore do necrotério. Todos ficam olhando sem conseguir se emocionar. Porém num silêncio comovedor) – O serviço terreno me reclama. (Parte no autogiro.Tema de Caronte.)

O Atleta Completo – Sinto dores reumáticas.

O Hierofante – Cuidado.

O Atleta Completo – Por quê?

O Hierofante – O Poeta pode chegar a qualquer momento.

O Atleta Completo – Mas sinto dores fulgurantes!

A Senhora Ministra – Você tem aí uma bolsa de água quente?

A Dama das Camélias – Sinto um frio enorme no peito!

O Hierofante – É a presença dos sopros augurais da terra.

Vento. Calor.

A Dama das camélias – O Poeta.

O Hierofante – Ele virá cantando a grandeza do agir...

A Senhora Ministra – Quem é que faz o discurso de recepção?

O Radiopatrulha – A motocicleta...

O Hierofante – Tornaste-vos ridículos à aproximação da vida.

A Dama das Camélias – Tornamo-nos humanos.

O vento pára. Silêncio. Alguém vai chegar. Ninguém entra. Tempo. Tensão. Atenção. E... A premonição chega apresentando O Poeta adentrando o País da Anestesia.

O Morto Alegre –

Em terra de caracóis e húmus sombria / A fossa cavarei que olho humano não sonda, / Onde eu possa atirar esta minha ossaria / E no olvido dormir como um tubarão na onda. /

Odeio o testamento e a tumba amarga e fria; / Que importa o mundo chore o morto em sua ronda? / Mil vezes convidar os corvos para a orgia, / Que o sangue beberão desta carcaça hedionda. /

Vermes, que nos roeis, sem olho e sem nariz! / Eis que chegou a vós morto livre e feliz; / Filósofos fatais, filhos da sepultura, /

Por toda a minha ruína ide então sem remorsos / E dizei se ainda ignora alguma desventura / Este corpo sem alma e morto em meio aos mortos!

O Poeta (Procura na cena.) – Dulcina! Beatriz! Cacilda! Retificadora de meus caminhos! Que tive longe de ti? Cachos de desgraças. Ofereço-te o alagado de meu sentimento! Sem desejar nada de ti, de teu corpo sepulcral, ofereço-te o meu coração. (Descerra o renard.) Beatriz!

Beatriz – Sacrilégio...

O Poeta – Beatriz!

Beatriz – Dizes tão bem o meu nome! Por que tudo que eu te dou de emoção, de força criadora, não pões em tua arte estancada?

O Poeta – Falas de novo a linguagem da vida! Queres de novo dar existência ao poema de meu encontro!

Beatriz – Que fizeste Poeta! Não podes penetrar no país que eu habito. Não podes perscrutar minha sagrada intimidade com os autômatos!

Coro – Cacilda.

O Poeta – Lacera-me de novo a angústia criadora. Venho de uma noite cheia de pessoas e de vultos, a noite sem ti!

Coro – Poutz!

Beatriz – Que se passa lá embaixo onde há a chuva?

O Poeta – A chuva coiteira das tragédias!

Beatriz – O Ego e a Gramática.

O Poeta – Pareces anestesiada num lençol de argila!

Beatriz – Interrompeste o meu sono, Poeta! És a incorreção!

O Poeta – Como falas diferente! Trazes no fácies os sinais da decomposição de tua unidade!

Beatriz – Pelo contrário...

O Poeta – És a máscara de um ser que se dispersa. Teus olhos deliram enquanto tua boca amarga sorri. Tens os cabelos do homem de Neandertal, coroados de espinhos!

Beatriz – Sou o primeiro degrau da vida espiritual!

O Poeta – O que me chama é o drama. Drama, desenvolvimento do próprio ser universa!

Beatriz – Quero plata...

O Poeta – Dissimetria, minha criadora dissimetria!

Beatriz – Tu me abriste de novo os caminhos incoerentes da terra Poeta!

O Poeta aproxima-se quieto e sombrio.

O Hierofante – Formaremos um comício de protesto! O amor quer fazê-la voltar o país ordenado e terrível da rua.

O Radiopatrulha – Onde nos reuniremos?

A Dama das Camélias – Vamos para a platéia, assim não perderemos a grande cena.

O Radiopatrulha – Vamos!

A Senhora Ministra – Que curiosidade... eu sinto!

O Atleta Completo – Para a platéia! Quero ver como um poeta ama!

O Hierofante – Ordena um cortejo, Radiopatrulha, seguir-te-emos em ordem alfabética.

O Radiopatrulha – Debout lês morts!

Os cadáveres se organizam dificultosamente. Animado pelo barulho da motocicleta, conduzem em ritmo mole atrás do Radiopatrulha que desce da cena.

O Hierofante (Deixando o palco.) – De que serve aqui o subconsciente?... Onde se unem os dois planos, o latente e o manifesto?

Os mortos colocam-se na primeira fila do teatro, olhando.

Beatriz – Ama-me por favor!

O Poeta – És a agressão, o Eros e a morte. Sigo-te e desapareces!

Beatriz – Todo esforço é inútil!

O Poeta Angústia! Ansiedade! Divisão! Resolve! Vives de novo para a minha vida ou partes para sempre?

Beatriz – Todos os meus gestos são de amor!

O Poeta – Fala do sol, da manhã e da terra!...

Beatriz – Estamos no país propício às mensagens...

O Poeta – Eras a felicidade! Me diminuías como uma criança em ti!

Beatriz – Chorei todas as lágrimas! Hoje só resta o rímel negro destilado de meus olhos sem fundo!

O Poeta – Teus cabelos me envolvem! Sinto-me ensopado de estrelas álgidas. Quero a manhã! Quero o sol! Quero a potência que você me contou... e não só o ATO!

Beatriz – Escalaste escadarias, montanhas e o mar! Para atingirdes este horizonte sem fim!

O Poeta – Sorri! De dentro de teus cabelos noturnos! Sorri!

Beatriz – Sejamos a mesma aflição no mesmo leito!

O Poeta – Quero o marfim quente de teu corpo. Mas os teus olhos se evaporam! Que boca angustiada!

Beatriz – Sem ti me falta o apoio terreno...

O Poeta – Sinto-me rodeado de angústia das águas! Onde estou?

Beatriz – És o feto humano que voltou à eternidade!

O Poeta – Sou a tua mensagem sexual!

Beatriz – Não mais podes acordar em mim o ódio erótico...

O Poeta – Para onde me conduziste?

Beatriz-Sadie – Habito o país letárgico onde não penetra a dor! Você não compreende. Tenho que voltar a ser castigada pelo que fui até agora. Não há outro jeito. Devo cumprir minha pena... e então Deus me perdoará.

O Bode-Urubu se manifesta.

O Bode-Urubu – Morno espírito, outrora amoroso da luta, / A esperança que um dia esporeou teu ardor. / Não quer mais cavalgar-te! E dorme sem pudor, / Velho cavalo a quem mesmo planície é abrupta.

Coro – Dorme ó coração gruta em sonolência bruta!

Beatriz-Sadie – É um sacrifício que devo oferecer ao céu, pela vida que andei levando. Se ao menos isto já tivesse começado! Esperar pelo começo é que é doloroso... todos esses dias tão abandonada a bordo. Sinto minha fraqueza. Estou com medo, estou apavorada. Tenho de recorrer a todas as minhas forças, para enfrentar o que devo. Talvez seja menos difícil na penitenciária. Corpo de resistência em desistência!

O Poeta – Onde está a tua boca antiga? Porque esse ríctus? Oh! Os teus dentes! Não quero ver mais os teu dentes. Onde estão os teus lábios molhados e vivos? Foges com a boca repleta de dentes! Cessa o teu riso parado!

Ouve-se o uivo demorado de um cão.

O Radiopatrulha (Na platéia.) – Debout les morts!

O Poeta – Que uivo terrível! Parece um coração baleado...

Beatriz – Só por uma mulher, um cérebro uiva assim.

Os mortos permanecem no cemitério da platéia. O Bode-Urubu de Edgar abre as asas sob a árvore.

O Poeta – A tua mão termina em reta! O teu braço está rígido e reto! A noite tenebrosa de seus cabelos não mais restituirá a manhã radiosa...

O Urubu de Edgar (Aproximando-se e tomando a axila de Beatriz.) – O amor não penetra o crânio dos mortos!

O Poeta – Morta! Beijei inútil a labareda extinta de teu corpo! Por isso guardavas dentro do peito uma humanidade diversa, atraente e terrível!

A Dama das Camélias – Olhem, Beatriz permanece quieta e sensacional!

O Hierofante – Só se ama no plano da criação!

O Poeta – Eu trouxe o amor para o nada!

Beatriz – Para a aurora da vida!

O Poeta – Queimarei a tua carne dadivosa! Não se poupa o nada!

O Bode-Urubu de Edgar – Socorro! Socorro! Fogo!

Os mortos se movimentam na platéia.

O Poeta – Não penetrei à toa neste país, onde há uma Árvore e um facho. Se a força criadora de minha paixão não te toca, é porque não existes!

Ouve-se uma sereia estridente.

O Hierofante – O sinal dos cremadores! Acode-nos espírito da Árvore!

O Bode-Urubu de Edgar – Deus!

O Poeta – Reconheço-te, empresa funerária! Na matéria do meu cérebro ficará o teu epitáfio. Nunca mais! (toma do facho e começa a incendiar a Árvore da Vida.) Não mais estes símbolos dialéticos do sexual perturbarão a marcha do homem terreno. Foge bode-ave do Paraíso!

O Bode-Urubu de Edgar – Os cemitérios são combustíveis. Não há salvação!

A Senhora Ministra - Sempre disse que essa vela aí era um perigo!

O Radiopatrulha – O incêndio será a cegueira de Caronte.

O Atleta Completo – Errarão pelo espaço infinito nossos irmãos sem carne.

A Dama das Camélias – Sinto se inflamarem os meu pulmões...

O Atleta Completo – Talvez sejamos purificados!

A Senhora Ministra – Não. Cristo-Rei não deixará!

O Radiopatrulha – O país dos mortos é donde se alimenta toda religião...

O Hierofante – Mas os cremadores mataram os deuses... Jogaram fora os mitos inúteis.

Beatriz-Sadie – Poeta! Eu sinto por todos deste mundo! A vida é uma pinóia! Quanto a isso não há dúvida. Lá embaixo, no País da Chuva talvez seja melhor. Permanece para sempre dentro de mim! Sê fiel!

O Poeta – Devoro-te trecho noturno de minha vida! Serei fiel para com os arrebóis do futuro...

O Hierofante – O erro do homem é pensar que é o fim do barbante... O barbante não tem fim.

O Bode-Urubu de Edgar – A humanidade continuará trágica e ingênua... Só a morte é a etapa atingida.

O Poeta (Passa o facho aceso ao corpo de Beatriz, frouxamente coberto pelo renard argenté.) – Todo mistério será aclarado. Basta que o homem queime a própria alma!

Um imenso clarão vai se anunciando ao fundo. É o esclarecimento do poeta.

O Poeta-Zé – Eu sou esquizofrênico. Eu não consegui por minha energia criadora toda para fora. Nem acho que sozinho posso fazer isso. Acho que é uma questão de determinados momentos, onde as pressões colonizadoras externas, e as cabeças alienadas internas se suspendem e se pode liberar o que está aqui dentro. Eu já bolei mil peças, um milhão de filmes na minha cabeça. Só realizei muito pouco. Eu tive que ser empresário, repressor, para poder dos 80% do tempo que eu andei atrás de bancos procurando minhas condições, os outros 20% para dar alguma coisa de criação. Os outros 80% eu paguei muito caro pelo fato de ser um artista num país sub-desenvolvido. Mas eu sei que outros estão pagando, uma população imensa que nunca viu minhas peças, paga por mim também esses meus 20%. Eu poderia dar muito mais. Eu posso dar muito mais. Muito mais. Eu sinto correr em mim uma coisa muito doente que se saísse para fora não seria mais. Mas eu sou maldito, já com meus 20%, ou menos não sei. O que eu faço, para onde vai essa energia que eu canalizo? Eu perdi metade da minha vida importando cultura. Tudo tinha um know how. Eu como menino me preocupava muito com a criação de coisas de acordo com essa coisa mágica chamada REALIDADE BRASILEIRA. Era Zé Bandeira. Consegui fazer uma nação independente em mim quando encontrei com Oswald de Andrade...!

Trovão. São Oswaldo na projeção, televisão... Clarão dos arrebóis do futuro. Uma estrela vai explodir-queimar para nascer.

O Poeta-Zé – No ano de 1968 o Brasil jovem encontrou o Brasil plantado em 1930. No ano de 2008 o Brasil jovem sonâmbulo encontrou o Brasil de 1908-1968, encouraçando. Sendo o que não foram. Assim hoje sinto que eu estou morrendo, através dessa alma, Beatriz-Dulcina-Cacilda-Miranda tropical. Minha força eu posso jogar contra mim. Ou me calar, fazer novelas na TV, vender minha força no mercado de lavagem de cultura para dinheiro. Entrar na fila, refazer meu cadastro de ator, para dar minha massa cefálica para engordar a guerra... Para ajudar a entorpecer. Eu poderia ser um zumbi e dizer que teatro é novela. Novela é teatro do século XIX... É energia jogada contra a minha energia. É ajudar a me emparedar. Eu, como emparedado, esquizofrênico, quero soltar, dar passagem a esta energia, num espaço meu, num know how que eu crie. E eu não crio? Se eu não fabrico para exportação eu sou aquele que diz SIM. Eu sou aquele que aceita. Aquele que consome. Uma parte minha diz: ELES PENSAM POR NÓS. ELES CRIAM POR NÓS: vamos imitar, macaquear... Este ano eu tive tudo, agora é minha volta em S I L E N C I O. Eu achava que era a hora de pular fora... Mas o Rio de fogo, que passa debaixo do prédio, é o chamado de concentração e vazão! Voltei. Voltei inteiro, enfraquecido. E pus meu corpo aqui para dizer que eu V O L T E I. Ele ainda é um corpo todo encouraçado pelas milhões de impressões que a colônia me impôs, a tentativa de subdivisão do movimento... Mas dentro de mim alguma coisa me chama para aceitar o impulso da minha energia e ter C O R A G E M com os outros que também tiverem a C O R A G E M de procurar a minha missão aqui e agora. E não traí-la.

O Poeta vira facho bastão. O bastão é o fogo-poeta-amor. Os atores depois das últimas falas de seus personagens vão virando atores cavalos Hiperbóreos. Vão virando Poetas-Hiperbóreos. Menos o Hierofante que é o último ator a deixar o personagem.

A senhora Ministra – Fujamos para o país da chuva...

O Poeta – A noite não terá mais passos nem vultos!

O Hierofante-Gogo – Vamos malhar o ferro antes que esfrie. O dilúvio de fogo nos seguirá!

Beatriz – Sexual! Sexual!

O Poeta-Cavalo-Coro Hiperbóreo – Incendiarei os teus cabelos noturnos! Atua boca aquosa! A aurora de teus seios! Pois cada geração, tem dentro de um tempo muito curto, e dentro de uma certa confusão, descobrir sua Missão. Cumpri-la ou Traí-la. Nós estamos aqui para isso. Esse é o nosso Super Objetivo. Em toda a peça que vocês assistiram, a nossa perícia consistia em passar isso sem dar muito na cara. Agora abrimos o jogo. Nosso Super Objetivo é este. E para saber se posso descobrir minha missão aqui, cumpri-la ou traí-la, eu tenho que saber se eu posso descobri-la, traí-la ou cumpri-la aqui! Se não eu estou perdendo meu Tempo. E nós temos pouquíssimo tempo. Isso é um Teatro. No Teatro Hoje MEU CORPO É UM MEIO. Eu me exprimo com meu corpo. Para esses outros milhares de corpos mortos. Ressuscitar todo mundo que está afim de ser ressuscitado. E deixar morrer, quem estiver afim de morrer. O teatro não tem regras, formas, estruturas, padrões, tradições... Não é Dulcina, oficina, Tropicália... É a continuidade de tudo isso pelo seu momento de geração, pela emanação da ação... É energia pura, natural, é impulso, é anarquia bailante... Nosso trabalho de revolição das coisas é estourar com os palcos, tacar fogo nos teatros, na nossa alma, nos cinemas, nas caretices dos movimentos, na politicagem libertária repressora... FOGO!!! Revolução no teatro Regina-Dulcina, do Oficina, do TBC, de todos os outros terreiros ainda não eletrizados... queime o teatro-prédio de 50 anos atrás... Revolução no Auditório-platéia. Nós ficamos pissudos quando a nossa energia é gasta com a peça que tem começo meio fim, quarta parede, portas fechadas, de saída. Com ingressos pagos. O único papel do Teatro é levar a platéia pra fora da platéia, e levar a platéia pras ruas! Por isso das ruas entramos no país da anestesia... Não temos poder sobre o teatro, nem sobre as ruas... Somos cavalos! Esquizofrênicos! Mas meu cérebro ainda não foi totalmente encouraçado! Aceitamos, mas não representar! É uma questão de determinados momentos onde as pressões colonizadoras, influenciadoras, externas se suspendem e se pode liberar o que está aqui dentro! O PÙBLICO e OS ATORES! Fogo meu amor! Fogo!

Flamba tudo nas mãos heróicas do Poeta. Os personagens saem dos cavalos ficam espalhados pelo teatro. OS atores destroem os cérebros lobotomizados... Vão destruindo e levando o público para fora. A Atriz Beatriz deixa queimar o corpo de Beatriz e se liberda, vira Atriz Hiperbórea.

O Hierofante (Aproximando-se da platéia.) – Respeitável público! Não vos pedimos palmas, pedimos bombeiros! Se quiserdes salvar as vossas tradições e a vossa moral, ide chamar os bombeiros ou se preferirdes a polícia! Salvai nossas podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!

O ator Hierofante tira o personagem. Saem queimando tudo, abrindo tudo. Ficam as roupas dos personagens largados pelo teatro, pela rua, onde for feito o rito de A MORTA.

Cai tudo.

A platéia é posta na rua misturada com os atores.

Emergência.

NINHO DE NÔNO. Caminho para fazer um ninho.

1- (Portas abertas, todos na rua, teatro respirando pirando circulação, ação,criação, dentro e fora, rua e teatro se confundindo. Festa.)

2- (Chegam policiais, prendem os atores. O Teatro é lacrado. E fechado.)


Tela infinita inicial

quinta-feira, 7 de maio de 2009

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009


Aniversario da Dulcina.

Uma semana antes do aniversario da Dulcina os Dulcynas-A Outra pesquisando no Bixiga ainda entendendo como se mover para a criação do primeiro quadro d'A Morta-filme-digital-clítoris produziu loucamente imagens dos personagens da peça que se comunicariam no bairro através de links para a radio como a freqüência o texto da peca vídeos de outros pousos... no dia do aniversario da Dulcina dia 3 de fevereiro 101 anos antes da leitura inicio da MORTA oficialmente em Sampa lá fomos fazer um teste de como seria a imagem desse mapa, que é a colméia do pensamento. Essa colméia desenho da ação d'O Poeta desembocou na idéia de crianças do Bixiga que conosco lá estavam, fazer daquele pequeno trecho uma praça... houve moradores que não gostaram da idéia das crianças de ter banco por causa de "vagabundos"... as crianças dizem um mapas de praças que nunca por elas são usadas... fomos entendendo com quem estava o problema de ali ser uma praça, identificando vários tipos de praças que podem surgir. Pintando conseguimos uma comunicaçao de desejos e propostas como transformar ali numa praça de reciclagem, a Praça do Recicla. Crianças passam a entender os vários tipos de praças, adultos podem querer a começar a entender a possibilidade de revitalização dos lugares numa ação de cuidado mesmo com quem mora nas ruas... E apenas em teste pintando a parede entendemos que essa ação de revitalização de uma parede que estava pixada após pedir a autorização da responsável pela parede pudemos ao invés de passarmos por cima do pixe existente, ligar ponto das linhas das letras e colorir a grande colméia do pensamento, letras caras, idéias, movimento mesmo de corpos, questionamentos... Tudo isso transmitido pela radio. As idéias das pessoas, dos adultos, das crianças... teatro. Cores. Historias. Transmissão. Revitalização.


Fazer essa revitalização nas paredes como queimaduras de fogueiras em vários pontos do Bixiga criando rede e comunicação, identificação, circulação interna de informação. Para poder o Bixigão agir no bairro em conjunto com todos os pontos culturais, de cultura, teatro, casas, bares, escolas...

A MORTA se dará assim.

Movimento Dulcynelandia vivendo essa multiversidade de comunicação através da Dulcina Bi-atriz. O cenário será feito em pontos do bairro, onde a cara da Dulcina será queimada na parede pelas Tintas Efusivas do Amor... Nessa ação a agregação das pessoas transeuntes crianças do domingo, bares...

Ligação da radio Nirvana.

AMorta.

Filmagem na locação, loucação; Nesse cenário dentro desse lugar, na historia que for descoberta ali. Numa atuação estudada, e meditada ensaiada na semana potencializando a criação das musicas e da compreensão para a atuação.


Assim em movimento o Dulcynelandia conjuntamente com o Movimento Bixigao e todos os outros interessados por ações no Bixiga num levantamento de religacao se movimenta para a idéia de universidades em todos os pontos do país com seu meio de vida para as universidades.

TE-ATO.

Que as ações culturais não se alienem aos desejos de quem mora e freqüenta o Bixiga. Dando a possibilidade de acesso a cultura lazer saúde educação praça... Não para fechar o acesso de pessoas de fora do bairro, mas para poder ter presentes os moradores do Bixiga em comunicação com pessoas que vem de fora aos teatros, restaurantes, a RUA...

Esse é um primeiro olhar sobre essa breve ação de estudo de laboratório subterrâneo; o que trouxe. Projetou. Agora é continuar e tirar daqui a experiência sobre universidade livre. E paralelo estudar como se fomentaria as

universidades livres antropofágicas móveis.

Filmar e criar o COLAR TRUNCADO, para o primeiro quadro.

MERDA

Ser-aFim

O.A.

Enfermeira Sonâmbula